10 abril 2011

O mistério dos manuscritos do Mar Morto


Estudo revela que os essênios, grupo judaico ao qual se atribui a autoria dos pergaminhos que registram o início da era cristã, podem nunca ter existido
ESCONDERIJO Detalhes da sociedade judaica de 2 mil anos atrás foram revelados com a descoberta de 930 pergaminhos, entre 1947 e 1956, em 11 cavernas de Qumran, em Israel

Uma sociedade ideal, que despreza os valores da vida mundana como o dinheiro e a posse de terras, respeita os idosos, rejeita a escravidão e se dedica à caridade. Assim seriam os essênios, um grupo de judeus cuja origem data de dois séculos antes de Cristo e que desapareceu no ano 70 d.C., quando o general romano Tito liderou o massacre de Jerusalém. Antes de serem aniquilados, os essênios teriam dado um passo importante para a preservação da história ao esconderem em potes espalhados por 11 cavernas na região de Qumran, junto ao Mar Morto, no deserto da Judeia, documentos em que teriam relatado práticas, crenças e hábitos do início da era cristã. Encontrados entre os anos de 1947 e 1956, os 930 pergaminhos conhecidos como Manuscritos do Mar Morto revelaram, entre outras coisas (leia quadro), os textos bíblicos mais antigos de que se tem notícia. Para muitos, trata-se da maior descoberta arqueológica do século XX. O alicerce dessa história, porém, foi abalado na semana passada pela israelense Rachel Elior, uma professora de misticismo judaico. Depois de passar uma década lendo minuciosamente os pergaminhos, ela concluiu que os essênios nunca existiram: "Eles são uma lenda", afirma.


Rachel, que é da Universidade Hebraica de Jerusalém, sustenta a tese argumentando que é de se estranhar que os essênios, uma vez autores dos manuscritos, não façam qualquer referência a si próprios nos textos. "Que eles não sejam os autores não é novidade, muitos especialistas já defendiam isso", afirma o teólogo Pedro Vasconcellos, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). "Daí a dizer que nunca existiram é bombástico. Eu me assustei." Para Paulo Nogueira, que leciona literatura do cristianismo primitivo na Universidade Metodista, em São Bernardo do Campo, São Paulo, a hipótese da existência dos essênios, sob a luz da pesquisa dos manuscritos, é frágil. "Nesse caso, a contra-hipótese de Rachel não é absurda", diz ele. "Ela radicalizou uma postura, chutou um balde que já estava à beira do abismo."


Muito do que se sabe, hoje, sobre os essênios foi escrito por Flavio Josefo, um historiador que viveu no século I d.C. Ele relatou também as trajetórias de saduceus e fariseus, outros dois grupos religiosos que existiram na era cristã no território que hoje é Israel. Segundo Josefo, os cerca de quatro mil essênios viveram em oposição ao mandamento bíblico que exigia o matrimônio e a procriação, não se alimentavam de animais mortos, ficavam imergidos na água a cada manhã e proibiam a expressão da raiva. Práticas que os elevariam à condição de uma sociedade dissidente e esotérica, não fosse sua história uma utopia, como defende a professora Rachel. Para ela, quando se refere aos essênios, Josefo, considerado pelos judeus um dos maiores historiadores da época, estaria exercitando a literatura e não uma descrição histórica. "Não faz sentido haver milhares de pessoas vivendo de forma contrária à lei judaica e não existir qualquer referência a elas em nenhum texto hebraico ou aramaico", diz a israelense.


A quem caberia, então, a paternidade dos manuscritos? De acordo com a professora da Universidade de Jerusalém, os escritores se identificam nos textos como sacerdotes filhos do judeu saduceu Zadok, um grupo mais vinculado ao judaísmo oficial de Jerusalém. "É problemático (eles serem os autores) porque os manuscritos revelam manifestações ou tendências não tão alinhadas à ortodoxia daquela época. Portanto, ou são a expressão de uma dissidência judaica ou de um judaísmo multifacetado", pondera Vasconcellos, da PUC. "No fim das contas, Rachel quis substituir um grupo por outro. Mas a discussão daqui para a frente tem de ser sobre a existência ou não dos essênios." Esse é o enigma.



Os essênios suportavam com admirável estoicismo os maiores sacrifícios para não violar o menor preceito religioso. Procuravam servir a Deus, auxiliando o próximo, sem imolações no altar e sem cultuar imagens. Eram livres, trabalhavam em comunidade, vivendo do que produziam. Em seu meio não havia escravos. Tornaram-se famosos pelo conhecimento e uso das ervas, entregando-se abertamente ao exercício da medicina ocultista. Em seus ensinos, seguindo o método das Escolas Iniciáticas, submetiam os discípulos a rituais de Iniciação, conforme adquiriam conhecimentos e passavam para graus mais avançados. Mostravam então, tanto na teoria quanto na prática, as Leis Superiores do Universo e da Vida, tristemente esquecidas na ocasião.


Os hábitos alimentares frugais e a vida metódica dos essênios garantiam-lhes uma vida saudável. Segundo Josefo, muitos deles teriam atingido idade extraordinariamente avançada. Uma das principais obras que permitem o estudo sobre a filosofia essênia é um manuscrito encontrado em 1785 por um historiador francês em viagens pelo Egito e pela Síria. É um dialogo entre Josefo e o mestre essênio Banus a respeito das leis da natureza. Abaixo estão algumas definições:

O Bem – Tudo aquilo que preserva ou produz coisas para o mundo, como “o cultivo dos campos, a fecundidade de uma mulher e a sabedoria de um professor”.


O Mal – O que causa a morte, como a matança de animais. Por esse motivo, o sacrifício de animais, mesmo que para a alimentação, é condenável.

A Justiça – O homem deve ser justo porque na lei da natureza as penalidades são proporcionais às infrações. Deve ser pacífico, tolerante e caridoso com todos, “para ensinar aos homens como se tornarem melhores e mais felizes”.

A Temperança – Sobriedade e moderação das paixões são virtudes, pois os vícios trazem muitos prejuízos à saúde. A Coragem – Ela é essencial para “rejeitar a opressão, defender a vida e a liberdade”.

A Higiene – Uma outra virtude essencial para os essênios para “renovar o ar, refrescar o sangue e abrir a mente à alegria”.

O Perdão – No caso de as leis não serem cumpridas, a penitência é simples e para se obter o perdão, deve-se “fazer um bem proporcional ao mal causado”.

Jesus Cristo teria sido um Essênio?

Há dezenas de dúvidas sobre os essênios, mas a hipótese de que Jesus Cristo teria tido contato com eles é uma das mais intrigantes. Não há relatos sobre onde esteve nem o que Jesus fez entre seus 13 e 30 anos. Assim, a hipótese que os estudiosos adotam é a de que Jesus, durante esse tempo, esteve com os essênios e teve sua “clarividência” despertada junto a esse povo.

Outro fato intrigante, é que, sendo os essênios uma das três mais importantes seitas da Palestina naquela época, por que o evangelho não fala deles? Teria sido o evangelho “censurado”? A verdade ainda é desconhecida, mas, de acordo com os manuscritos do mar Morto, eis alguns costumes dos essênios:

• Batismo • Santa Ceia • Caridade • Andavam em grupo de doze • Jejum • Curandeirismo (por imposição das mãos).

O tipo de vida dos essênios se parecia muito com a dos primeiros cristãos, o que faz algumas pessoas pensarem que Jesus fez parte dessa seita antes de começar sua missão pública. O que se tem certeza é de que Jesus pode tê-la conhecido, mas não há nada que prove que Ele a tenha adotado, e tudo o que se escreveu sobre esse assunto não tem comprovação.

O Legado Essênio



No fim de 1946 (Novembro ou Dezembro) três pastores em Ain Feshka, oásis próximo ao Mar Morto, descobrem em uma das grutas da região uns jarros de argila e em um deles três rolos escritos em hebraico antigo, o que dificulta a identificação. Essa gruta está situada nos rochedos de uma falésia aproximadamente 1300 metros ao norte de algumas ruínas que os árabes conhecem pelo nome de Khirbet Qumran. Assim, com a descoberta, os arqueólogos relacionam o grupo que vivia nessas ruínas com os possíveis responsáveis pelos manuscritos encontrados. E ao redor, outras grutas são encontradas contendo outros fragmentos cuidadosamente embalados em jarros, o que leva a crer que aqueles documentos não estariam ali por acaso.

No total, são recuperados, em 11 grutas de Qumran, 11 manuscritos mais ou menos completos e milhares de fragmentos de mais de 800 manuscritos em pergaminhos e papiros. Escritos em hebraico, aramaico e grego, cerca de 225 manuscritos são cópias de livros bíblicos, sendo o restante livros apócrifos. Os manuscritos estão sendo traduzidos até hoje e muito já foi descoberto.

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